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O cristão e a pornografia

Por Nelson Galvão

O sinal para o intervalo tocou. Descemos como de costume para o pátio da escola. Mas, dessa vez algo estava diferente. Havia um conglomerado de rapazes no centro da quadra. Estavam todos organizados em uma roda com o foco no centro. Pensei que seria uma briga, mas davam risadas e faziam gestos e gracejos obscenos. Então, logo descobri do que se tratava, algum dos rapazes pegou a revista pornográfica do pai e trouxe para a escola. Foi o “evento” do dia!!!

Hoje com a tecnologia não existe mais esse tipo de “evento”. Isso porque não é mais novidade. A tecnologia facilitou o acesso à pornografia. Estar diante de imagens imorais é tão fácil quanto dar um click!

Nos últimos anos a pornografia cresceu tanto que se tornou uma das marcas sociais mais preponderantes. De acordo com reportagem do jornal britânico The Guardian, existe uma grande dificuldade de dados estatísticos em relação à pornografia. Entretanto, sabe-se que está por toda a parte. Segundo relatório existe proporção significativa de crianças e jovens que são expostos ou acessam a pornografia[1].

Agora, é um grande equívoco achar que os cristãos estão imunes a este mal. Não, existem inúmeros jovens e adultos, homens e mulheres, solteiros e casados dentro das igrejas que lutam silenciosamente contra este pecado. Esses cristãos sabem que a prática de perversões sexuais como a pornografia é errada. Entretanto, a despeito de seu conhecimento, ainda se deixam intoxicar.

Os efeitos nocivos dessa prática pecaminosa são inúmeros, dentre os quais destaco: degradação da mulher; degradação do sexo tal qual como criado por Deus; destruição do casamento e das relações entre pais e filhos. Sim, existe nas igrejas uma luta silenciosa contra a pornografia e muita gente tem perdido essa luta. Por isso, inúmeros casamentos naufragando, jovens com namoros promíscuos e que não conseguem crescer na caminhada cristã.

Diante disso, como lutar? Que armas temos à nossa disposição para lutar contra tamanha ameaça? A Palavra de Deus oferece auxílio para aqueles que lutam contra a pornografia e constitui-se na poderosa e efetiva arma de desintoxicação. Vejamos então como a Palavra de Deus nos orienta em relação a isso.

Reconheça que é pecado

O desejo sexual por si só não é pecado. Ao contrário, é uma dádiva graciosa de Deus. Entretanto, ele foi corrompido pelo pecado e, se não transformado pela graça de Cristo é uma poderosa ferramenta de degradação. Comentando sobre isso, Timothy Keller afirma:

“O propósito do sexo é entregar-se por inteiro para a vida toda. O coração pecaminoso, contudo, deseja usar o sexo por razões egoístas, e não para expressar uma entrega total”[2].

É por isso que Paulo escrevendo aos Romanos exorta:

“Comportemo-nos com decência, como quem age à luz do dia, não em orgias e bebedeiras, não em imoralidade sexual e depravação, não em desavença e inveja.

Pelo contrário, revistam-se do Senhor Jesus Cristo, e não fiquem premeditando como satisfazer os desejos da carne” (Rm 13.13,14).

Perceba que nesse texto Paulo adverte a respeito da “imoralidade sexual” e da “depravação”. A imoralidade sexual é o sexo ilícito, aquele fora dos parâmetros dados pelo Criador. A depravação, por sua vez, é a cobiça sem controle. Envolve a imoralidade sexual, o sexo ilícito, mas com a adição da insaciabilidade. Note aqui os elementos da pornografia: sexo ilícito e insaciabilidade.

Em outras ocasiões, Paulo menciona uma palavra grega: πορνεια (porneia). O curioso é que essa palavra é a mesma que foi transliterada para o português “pornografia”. Entretanto, o sentido em Paulo é mais amplo. Trata-se de toda e qualquer relação sexual imoral, incluindo a pornografia.

Assim, em Romanos, Paulo diz que o resultado da rebeldia contra o Criador é que os homens tornam-se: “cheios de toda injustiça, malícia (πορνεια), avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores” (Rm 1.29). Alistando as obras da carne, Paulo menciona: ”prostituição, impureza (πορνεια), lascívia” (Gl 5.19). Escrevendo aos Coríntios, Paulo adverte a respeito de uma disposição de coração que gera pecados semelhantes ao povo de Israel no deserto. Um desses pecados é a πορνευωμεν(porneuomem), imoralidade: “E não pratiquemos imoralidade, como alguns deles o fizeram, e caíram, num só dia, vinte e três mil” (1 Co 10.8). Aos Efésios, Paulo diz que “entre vocês não deve haver nem sequer menção de imoralidade sexual (πορνεια) nem de qualquer espécie de impureza nem de cobiça; pois estas coisas não são próprias para os santos” (Ef 5.3).

Sim, a pornografia é pecado e, como tal, rebeldia contra Deus. Dessa forma, antes de mais nada, é preciso o reconhecimento de que a pornografia é pecado. Existem aqueles que minimizam a questão e afirmam: “Não tem problema”, “de tantos males vamos nos preocupar com algo tão bobo?!”.

Bem, a despeito disso, precisamos reconhecer que a pornografia é rebeldia contra o Criador e gradativamente viciante.

Seu prazer deve estar em Cristo

Nós abraçamos todo e qualquer pecado porque acreditamos na mentira de que ele nos fará felizes. Acreditamos em sua promessa de que ele nos trará satisfação. Timothy Keller comenta sobre isso da seguinte forma:

“Uma das razões pelas quais ardemos de paixão sexualmente aparentemente incontrolável é que, no momento, nosso coração crê na mentira de que, se tivermos uma experiência romântica e sexual extraordinária, finalmente nos sentiremos profundamente satisfeitos”[3].

Entretanto, veja o que Jesus disse em João 6.35:

Declarou-lhes, pois, Jesus: Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede.

O princípio aqui é: somente Cristo nos traz a verdadeira satisfação. Uma vez que realmente estamos satisfeitos nEle, não cederemos as tentações do pecado. Comentando sobre isso, John Piper afirma: “O combate da fé contra a luxúria é a luta para ficar satisfeito com Deus”[4].

Pense bem, uma vez que você acabou de comer aquele churrasco, você não vai sair à procura daquele sanduíche malfadado da esquina!

Como pastor de jovens tenho conversado com alguns jovens e adolescentes que lutam contra a pornografia. Alguns deles afirmam que sabem que é errado, mas não conseguem deixar. A grande questão não é o prazer que temos com o pecado. Se o pecado não desse prazer não pecaríamos!!! A grande questão é o quanto estamos satisfeitos em Cristo.

Sendo assim, você que luta com um filho envolvido em pornografia, você precisa focar não tanto no comportamento dele, mas naquilo para o qual esse comportamento aponta: o coração. Considere uma oportunidade para levar seu filho mais uma vez para os pés da cruz.

Saiba os benefícios do sexo nos termos de Deus

Em Desintoxicação Sexual, Tim Challies[5] trata sobre a temática da sexualidade, especificamente a prática da pornografia. De acordo com o autor, o enfrentamento da pornografia deve levar em consideração não somente que esta prática é errada, mas também os benefícios do sexo dentro dos propósitos de Deus para ele.

Perceba que depois que Deus criou todas as coisas, o homem e a mulher (inclusive o sexo), “viu que tudo era muito bom!” (Gn 1.31). Sim, o sexo dentro dos termos dados por Deus é bom e traz benefícios para os parceiros. No cap. 2 de Genesis está o relato mais detalhado da criação da mulher. Depois que Deus cria a mulher e, tal pai da noiva, traz a mulher ao homem, este reage com uma poesia: “Esta, afinal, é osso dos meus ossos e carne da minha carne; chamar-se-á varoa, porquanto do varão foi tomada” (Gn 2.23).

O sexo dentro dos termos de Deus traz inúmeros benefícios, dentre eles está a alegria sem culpa.

O pecado de Adão (Gn 3) começou com a descrença na Palavra de Deus (Gn 2.16,17), em não crer que esta era a orientação correta que lhes traria plenitude. Adão e Eva não se satisfizeram com a orientação de Deus, escolheram algo mais.

Reconheça sua fraqueza

Paulo chama a imoralidade de obra da carne (Gl 5.19). É curioso que em poucos versos antes, ele afirma que existe uma forma de não satisfazermos os desejos da carne: “Andai no Espírito” (Gl 5.16).

O que significa andar no Espírito? Não, não é ter revelações, visões, dar piruetas espirituais, falar em línguas ou qualquer coisa do tipo. O Texto responde. Basta ler o contexto!

Paulo escreve aos Gálatas que estavam cedendo à influência de falsos mestres na igreja que ensinavam um “outro evangelho” (Gl 1.6-9).

A indignação de Paulo se dava pelo fato dos Gálatas estarem absorvendo as doutrinas desses falsos mestres.

Esse “outro evangelho” ensinado pelos falsos mestres de Gálatas tinha como característica principal a confiança nas obras da lei como caminho para a justificação.

Contra essa heresia, Paulo argumenta (Cap. 3) que os Gálatas receberam o Espírito pela fé (Gl 3.2); ou seja, foi por meio da obra do Espírito Santo que vieram a crer em Jesus Cristo e foram salvos. Entretanto, embora tivessem “começado pelo Espírito”, agora estavam “se aperfeiçoando pela carne” (Gl 3.3). Eles começaram crendo unicamente em Cristo para a salvação, mas agora, estavam crendo que a santificação se dava pelas obras da Lei.

No cap 5, Paulo volta a esse tema e diz que assim como eles começaram no Espírito, deveriam andar no Espírito (Gl 5.25). Logo, o andar no Espírito (Gl 5.16) é confiar no sacrifício de Cristo para a santificação, assim como confiamos para a salvação.

Essa confiança em Cristo implica em desconfiança em nossa própria capacidade. Dessa forma, na luta contra a pornografia, devemos desconfiar de nossa capacidade de vencer. Todas as vezes que nos sentimos fortes o suficiente para dizer não ao pecado, ele vem e nos humilha, nos mostrando quem realmente somos! Então, não é a nossa capacidade, mas a força e o mérito do Nosso Senhor.

Revista-se

Paulo usa uma figura muito curiosa, o despir-se e revestir-se. Aos Efésios, ele diz:

Mas não foi assim que aprendestes a Cristo, se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus, no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano (Ef 4.21,22).

Ao mesmo tempo, os Efésios deveriam:

e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade (Ef 4.23,24).

De forma semelhante, os Colossenses não deveriam mentir uns aos outros, “uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.9,10).

Agora, como revestir-se? Enchendo-se do Espírito (Ef 5.18). E como encher-se do Espirito? O Texto continua:

falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo.

Não é possível vencer a pornografia quando nossa mente é diariamente bombardeada pela sensualidade oriunda da TV, revista, sites, redes sociais e músicas. Nossa mente precisa ser inundada da Palavra de Deus. Então, pergunto: como tem sido seu tempo com a Palavra de Deus? Você tem lido livros que o confrontem com o Evangelho de Cristo? Você tem escutado música, assistido pregações no youtube, conversado com cristãos bíblicos que te ajudem no crescimento no conhecimento da Palavra de Deus?

Fuja

Existem inúmeros imperativos no Novo Testamento. São ordens de como os filhos do Rei devem proceder nesse mundo. Então, somos ordenados a resistir ao diabo (Tg 4.18); a não dar lugar ao diabo (Ef 4.27); travar o bom combate, conservando a fé e a boa consciência (1 Tm 1.18,19), etc.

Entretanto, é curioso que quando se trata da imoralidade sexual, a Bíblia usa termos diferentes. Como já vimos acima, Paulo menciona a πορνεια, ao escrever para os Coríntios (1Co 10.8). Agora, é curiosa a exortação de Paulo:

Fugi da impureza (πορνεια). Qualquer outro pecado que uma pessoa cometer é fora do corpo; mas aquele que pratica a imoralidade peca contra o próprio corpo. (1 Co 6.18).

Fugi! Essa é a orientação aos Coríntios. A mesma palavra é usada em Mt 10.23, quando Jesus adverte sobre as perseguições que viriam sobre seus discípulos:

Quando, porém, vos perseguirem numa cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel, até que venha o Filho do Homem (Mt 10.23).

A ideia é de escapar. Então, Paulo está dizendo: “Fujam da imoralidade sexual”.

Na prática significa escaparmos de situações que alimentam o pecado. Então, evite:

  • ficar sozinho no computador no quarto, especialmente até tarde da noite;
  • celular na cama na hora de dormir;
  • programas de TV e filmes com cenas impróprias.

Atenção! Perceba que isso não se refere a regras mecânicas de apenas “não faça isso, ou não faça aquilo”. Concordo com Paul Tripp quando ele alerta que “a maioria dos pais dos adolescentes tenha como objetivo mais básico controlar o comportamento de seus filhos”[6]. Esse pais esquecem que a grande questão não é comportamento, mas o coração.

Refiro-me a um princípio e sua aplicação em nosso cotidiano. Assim, apenas sugeri algumas coisas como exemplo para você pensar. Você mesmo sabe em que circunstâncias é mais tentado e como deveria fugir dessas coisas.

Procure ajuda

Uma das coisas mais incríveis do cristianismo é a coletividade. O Novo Testamento quando menciona a Igreja, sempre denota coletividade. As figuras usadas remontam à coletividade, como: corpo, edifício, templo, família, povo.

Por que então deveríamos lutar contra o pecado sozinhos? Precisamos nos valer da bênção de ser igreja. Assim, Tiago orienta: “Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5.16).

Diante de uma cultura permissiva e pornográfica, a confissão de nossos pecados aos nossos irmãos se torna uma ferramenta valiosa de luta contra os efeitos atraentes e nocivos da pornografia.

Então, não lute sozinho. Procure um conselheiro bíblico, alguém maduro na fé cristã que irá te ajudar no combate a este mal.

———————-

[1] https://www.theguardian.com/news/datablog/2013/may/24/missing-statistics-pornography

[2] Timothy Keller. O significado do casamento. p. 267.

[3] Timothy Keller. O significado do casamento. p. 276.

[4] John Piper. Lutando contra a incredulidade. p. 148

[5] Tim Challies. Desintoxicação sexual: um guia para homens que querem fugir da imoralidade sexual. São Paulo: Vida Nova, 2011

[6] Paul David Tripp. A Idade da oportunidade. p. 113

>> Original em Mulher da Palavra

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