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Aprendendo como não ser um “conselheiro problemático”

Por Jeff Forrey

Existem várias maneiras diferentes de aprender as habilidades do aconselhamento. O principal método é observar, modelar e receber o feedback de um conselheiro experiente e bem-sucedido. Deste bem-sucedido conselheiro, você pode aprender abordagens eficazes para a construção de um maior envolvimento, fazendo perguntas frutíferas, esclarecendo respostas vagas ou obtusas, etc. No entanto, este método não é a única maneira de se adquirir boas habilidades no aconselhamento.

Outra opção para aprender habilidades de aconselhamento é observar um conselheiro não qualificado e malsucedido e determinar quais erros evitar. As escrituras, na verdade, demonstram isso no livro de Jó, que expõe, com detalhes excruciantes, como não aconselhar alguém. Neste post, quero oferecer advertências que podemos aprender com aqueles a quem Jó rotulou de “conselheiros problemáticos” (ou “consoladores miseráveis” – Jó 16:2).

 

Definindo o Palco

Aprendemos sobre os erros que os conselheiros de Jó cometem porque o narrador revela o histórico das provações de Jó nos capítulos 1-2. Resumidamente, aqui está o que aprendemos:

(1) Jó é “irrepreensível e reto; temeu a Deus e rejeitou o mal” (1:1). Ele não está “sem pecado” (veja 42:5-6), mas ele é uma pessoa de integridade, cujo estilo de vida geralmente reflete as expectativas do Criador (1:8; 2:3).

(2) Ele foi abençoado com uma grande família[1] e muita riqueza, medida em termos de grande número de animais e servos (1:3). Assim, quando ele perde tudo, a perda é imensa.

(3) Jó não está em julgamento. O conflito que impulsiona o enredo é entre Deus e o “Acusador”. Os conselheiros de Jó involuntariamente se tornam os peões do acusador.

 

Apresentando os Conselheiros de Jó

Os três conselheiros de Jó – Elifaz, Bildade e Zofar – são identificados como seus “amigos”[2] (2:11-13). Eles vêm confortar Jó depois que ele perde a família, o gado, a saúde e sua posição social. Ao vê-lo, desfigurado pelas feridas supuradas em seu corpo e sentado na pilha de cinzas no lixão da cidade, eles choram por ele. Então eles se sentam em silêncio com ele por uma semana. (Observe a ironia: a tática mais apropriada que esses conselheiros usam é o silêncio!)[3]

 

O raciocínio dos três amigos de Jó

Embora Elifaz, Bildade e Zofar desenvolvam seus argumentos sobre a suposta culpa de Jó usando diferentes metáforas e recorrendo a diferentes fontes de autoridade, eles compartilham a mesma conclusão. Sabemos que esta conclusão é falsa, mas é crucial que apreciemos como eles chegam a ela: (1) Algumas passagens da Escritura afirmam que Deus recompensa a obediência e pune a desobediência à Sua Palavra (por exemplo, em Provérbios e Deuteronômio). Por enquanto, tudo bem. (2) No entanto, em seu conselho a Jó, seus amigos raciocinam ao contrário: “Porque Jó está sofrendo muito, ele deve ter pecado muito”. Portanto, a solução proposta para seu sofrimento é o arrependimento (por exemplo, 4:7-11; 8:3-7; 22:21-30). Esse pensamento reflete a sabedoria tradicional de seus dias.[4]

 

Os problemas de como Jó foi aconselhado

(1) Os conselheiros de Jó priorizam seu sistema teológico quando coletam informações junto a Jó. Eles nunca viram o pecado de Jó como um prelúdio para o seu sofrimento, eles nunca receberam qualquer relato de seu pecado, e nunca investigam se sua suposição de sua culpa é válida. Para eles, é um “óbvio”, porque não há espaço em sua teologia para um sofredor inocente.

Essa tentação é algo de que precisamos tomar cuidado também. Lembro-me de um aconselhado muito perturbado muitos anos atrás que me procurou por conselho. Ela estava tendo problemas conjugais. Ela compartilhou isto com o pastor da igreja que ela estava visitando depois de um pequeno grupo de estudos bíblicos. Antes de sair da reunião, o pastor reuniu alguns outros para orar por ela para livrá-la do demônio da raiva que a havia “obviamente” oprimido. Ninguém passou nenhum tempo na coleta de informações (ou mesmo na construção de envolvimento) com ela; eles assumiram que sabiam o que estava errado. E como Jó, ela deixou a reunião confusa e frustrada.

(2) Os conselheiros de Jó não escutam atentamente suas respostas às acusações. Jó oscila entre o desesperado desânimo e a ousada confiança ao longo de seus discursos. Ele anseia aliviar a sua dor (e, eventualmente, o conselho de seus amigos), mas se pergunta se seria possível. Conforme o tempo avança, ele contempla como ele pode aparecer diante de seu juiz celestial para defender sua inocência.

Elifaz, Bildade e Zofar não perguntam sobre as respostas de Jó a eles. De fato, a cada rodada do debate, eles se tornam cada vez mais resolutos e mais duros em seus comentários a Jó. De sua perspectiva, a sabedoria tradicional em que acreditam deve ser verdadeira e, portanto, Jó deve estar errado. Suas cabeças estão feitas e não serão dissuadidas pelos fatos!

 

Conclusão: A humildade é fundamental

Ler através do livro de Jó reforça a importância vital da humildade para os conselheiros bíblicos. Humildade envolve reconhecer suas limitações e apoiá-los com um espírito de aprendizado. Em princípio, isso parece razoável. Mas você precisa estar disposto a reconhecer o quão difícil pode ser quando a experiência do seu aconselhado vai contra suas pressuposições teológicas. Às vezes, isso significa que o aconselhado está errado e precisa se ajustar. Em outras ocasiões, isso ocorre porque sua teologia está equivocada e precisa ser ajustada. Não ignore esses momentos de confusão; procure ajuda de outras pessoas para determinar como você deve responder. Não cometa os erros que os amigos de Jó fizeram, porque sabemos o que Deus tinha a dizer sobre o conselho deles: “o Senhor disse a Ulifaz, o temanita: ‘Minha ira arde contra você e contra seus dois amigos, pois você não falou de mim o que é certo ‘”(Jó 42: 7)!

 

Perguntas para Reflexão

Você já teve que trabalhar com um aconselhado que havia sido “queimado” por um conselho insensível como Jó? Como você tentou ajudar neste caso? Você cometeu o mesmo erro que os amigos de Jó cometeram? Como você mudou?

 

Notas:

[1] De fato, pode-se dizer que ele teve a família “perfeita” com três filhas e sete filhos. Sete filhos – e dez filhos no geral – tinham grande significado simbólico no antigo Oriente Médio.

[2] Essa palavra poderia ser usada como um confidente próximo, ou ironicamente, um litigante em uma disputa legal. Elifaz, Bildade e Zofar cumprem os dois papéis. Veja John E. Hartley, The Book of Job (Grand Rapids: Eerdmans, 1988), 85.

[3] Por razões de espaço, não discutirei a contribuição de Eliú para este tópico.

[4] Esta sabedoria tradicional era uma versão rígida e mecânica da teologia da retribuição.

 

Sobre o autor:

Jeff Forrey, Ph.D., é atualmente o escritor sênior da Iniciativa da Igreja, um ministério de desenvolvimento curricular em Wake Forest, Carolina do Norte. Anteriormente, ele tinha sido um conselheiro bíblico em St. Louis, Cape Girardeau e nos subúrbios de Chicago. Ele também ensinou cursos de aconselhamento bíblico para várias instituições, incluindo o Seminário Teológico de Westminster, o Seminário Teológico Reformado em Charlotte e o Seminário Teológico de Birmingham.

>> Tradução de Robinson dos Santos

>> Artigo original em Biblical Counseling Coalition


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